
Odú revela que os saberes negros, indígenas e afro-indígenas não são ausência e sim fundamento para reinventar o mundo.
por Ananda Luz e Jéssica Silva
Muitos caminhos se abrem no corpo em relação ao território e, provocadas por isso, nós, Ananda Luz e Jéssica Silva, criamos o projeto Odú: arte e territorialidade, que mapeou pessoas negras, indígenas e afro-indígenas que vivem em dois territórios de identidade do estado da Bahia: Recôncavo e Extremo Sul. A partir do mapeamento, selecionamos três artistas de cada território e fizemos um videocast de entrevistas movidos por conversas sobre como a arte dessas pessoas acontece em diálogo com seus territórios. E foi assim que tecemos as seis entrevistas, como ato de existência, resistência e denúncia política em um mundo que ainda insiste em subalternizar experiências e tentar imprimir linguagens artísticas universais, quando estas urgem o plural.
Os episódios trouxeram vozes e corpos de diversos artistas: Anastácia Flora de Oliveira, a partir da fotografia que aprendeu com seu avô foi construindo imagens sobre sua cidade, São Félix e os arredores. A artista foi recriando visualidades sobre si, sua família e outras pessoas negras como ela e fez fotografias-afetivas no ReconcAVÔ. Emanuelle Brizon nos contou que, a partir de pinturas de telas, escolheu construir outros retratos de si e de outras mulheres negras ocupando espaços não dados e realizando inscrições que não limitem corpos de mulheres negras. Heloisa França retornou ao seu território com a linguagem da fotografia e da performance. Levou, em sua arte-encruzilhada, a ancestralidade e a espiritualidade no reencontro com suas mães que substancializou corpo-templo. Itamar dos Anjos nos provocou a pensar como a arte é vida, porque salva corpos subalternizados das muitas mortes que marcadores sociais podem impor a uma pessoa. Laiana Vieira faz da sua arte horizontalidade com a história não contada pela sua cidade. As suas percepções atentas do seu território propõem que acessemos as bonitezas de Santo Antônio de Jesus. Talita Tamikuã Pataxó apresentou como a sua expressão artística e de todas as mulheres Pataxós é ancestralidade, é ato político, é coletividade, é memória que desata nós.
Em todos os encontros, o corpo-território foi pulsante e criou elos entre estes artistas que, em sua maioria, nem se conheciam. A cada escuta, é possível perceber que o corpo guarda memórias de uma vida vivida e memórias dos seus ancestrais, reafirmando que o corpo não é neutro por estar impresso linguagens. E, por terem a consciência das linguagens de seus corpos, fazem de suas artes cura e enfrentamento, afirmação da vida e contemplação dialógica e crítica com o seu território.
O projeto, para compor tantas camadas dessas artistas, foi para além do vídeocast e das entrevistas. Odú: arte e territorialidade, a partir das lentes e direção artísticas de André Medina, contou o que o corpo transborda deste e nesse território com ensaios fotográficos das artista. Cada ensaio reafirma o que, para nós, na concepção do projeto, era um valor: a cosmopercepção e os Valores Civilizatórios Afro-Indígenas. A fotografia nos faz escutar, sentir, ver, perceber o que está em silêncio e o que está na palavra falada ou até mesmo o que ecoa desses corpos. A cosmopercepção é um valor, aprendido com Oyèrónk Oywùmí, para nunca mais esquecermos que há muitos sentidos para perceber e se relacionar com o mundo, não só a visão como a colonização nos submeteu. Os Valores Civilizatórios Afro-Indígenas são inspirações deixadas por Azoilda Loretto da Trindade, que ressignificou processos educativos ao criar uma metodologia baseada nos Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros. Nós trouxemos isso tudo para nosso território e acrescentamos os indígenas para legitimar os saberes indígenas de terras baianas (LUZ e SILVA, 2023).
Cada voz provocada por nossas perguntas, cada fotografia da performance capturada pelas lentes de André Medina e cada arte que ele e elas trouxeram para compartilhar no projeto fortalecem que existem Brasis sendo criados no hoje e distante do que foi definido historicamente pelos [ditos] centros. Tudo isso é reafirmação de que a arte é conhecimento e cultura, portanto conhecer outros centros (porque não acreditamos e não vamos deixar que acreditemos que só existe um centro) é mais que ampliar repertório, é acessar a diversidade, o que é bom para todas as pessoas por transformar a própria forma de ver, sentir e produzir mundo.
Ao conhecer o projeto, seja baixando o e-book ou ouvindo e vendo o videocast, você vai também sentir um pouco do que produzimos na nossa pós-graduação Educação e Relações Étnico-raciais: investigações de cosmopercepções amefricanas. Ainda porque é nesse espaço também que nós, como coordenadoras, organizamos e reorganizamos nossas pesquisas que vem de longe.
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Para acompanhar os bastidores do projeto: https://www.instagram.com/oducast_/
Para assistir: https://www.youtube.com/@oducast
Para ouvir: https://open.spotify.com/show/6lrouW9i6VV6IofWovLJfe
Este projeto é uma realização de Odú, com curadoria de Ananda Luz e Jéssica Silva, e tem apoio financeiro do Governo da Bahia através da Secretaria de Cultura via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal.
REFERÊNCIAS:
LUZ, Ananda e SILVA, Jéssica Silva. Educação e Relação Étnico-Raciais: investigações de cosmopercepções americanas. In: A Casa Tombada (Org). Abrigar a Impermanência: chão e telhando para o estudo e a pesquisa. São Paulo, SP: Diálogos Embalados, 2023.
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