
Formato 100% online | Quando 9 a 16 de setembro | Horário 19h30 às 21h |
Ciclo de estudos - online
Curadoria de Ângela Castelo Branco e Fernanda Leal
Nesse ciclo propomos pensar a relação entre a escrita, a psicanálise e o bordado. Como gestos que se entrelaçam, essas palavras inscrevem marcas sobre uma superfície e nela deixam vestígios de memória, ausência, presença e movimento.
“
Passo da escrita ao bordado, traduzindo como se ambos fossem a minha palavra; por momentos, esqueço-me mesmo que bordo, de tal modo os meus dedos se tornaram destros e o meu pensamento, refletido sobre o bordado, um pensamento.
Maria Gabriela Llansol · No livro das comunidades, 1977
Tomaremos o tecido (texto e trama) como superfície de encontro entre a escrita, a escuta e o pensamento. Nessa perspectiva, ele deixa de ser apenas matéria têxtil, suporte funcional ou utilitário, para assumir a condição de objeto do fora: território onde se entrecruzam lembranças e esquecimentos, transparências e opacidades, presenças e apagamentos.
Como no inconsciente, o tecido guarda inscrições que resistem ao tempo. Cada fio tocado, cada ponto, cada desfiar, faz emergir algo daquilo que não cessa de se escrever. A palavra, ao mesmo tempo desfiada e desafiada, torna-se gesto de criação e escuta, um modo singular de habitar o mundo. Entre o avesso e a superfície, ela inaugura um espaço outro: um lugar suspenso entre memória e invenção, fora do tempo, fora da lei simbólica.
Serão 06 dias conversando com artistas do tecido, da costura e do bordado, artistas da escuta e artistas da palavra que vão partilhar conosco suas pesquisas, vozes e fazeres.
Conheça o ciclo

Como acontece
Os encontros são online e ao vivo. Todos serão gravados, e as gravações ficarão disponíveis por 3 meses após a sua inscrição.
| Data | Horário | Encontro e convidado(a) |
| 09/09 qua | 19h30 às 21h | A casa: do estado de abandono ao espaço de criação Ângela Castelo Branco e Fernanda Leal |
| 10/09 qui | 19h30 às 21h | O fuxico: escutar, bordar, escrever Ayanne Sobral |
| 11/09 sex | 19h30 às 21h | “Arte, vida, palavra” Adrianna Eu |
| 12/09 sáb | 10h às 11h30 | Tecidos “ferrados” Sávio Drew |
| 15/09 ter | 19h30 às 21h | O grau zero do vestido: experiência e mais-além Jonas Samudio |
| 16/09 qua | 19h30 às 21h | Palavra bordada em ponto de p: uma clínica do escrito? Lúcia Castello Branco |
Dia 1 · 09/09, quarta · 19h30 às 21h
A casa: do estado de abandono ao espaço de criação
com Ângela Castelo Branco e Fernanda Leal
Neste dia apresentaremos as ideias centrais deste Ciclo de Estudos e partilharemos as nossas poéticas enquanto pesquisadoras e artistas que transitam pela relação entre a casa, a escrita e a arte têxtil.
Para nós, a casa é um lugar privilegiado da escrita e da produção artística, um espaço em que a solidão da própria casa favorece a criação. Quando a casa fica vazia, entre móveis, objetos, tecidos, folhas em branco e pequenos acontecimentos cotidianos, surge uma solidão que pode transformar-se na solidão da escrita.
Em Marguerite Duras, a casa mantém uma intimidade particular com a mulher. O silêncio da casa abre espaço para uma “palavra livre, uma palavra inventada”, uma fala que nasce da solidão e de um pensamento que toma forma entre o pensar, o não pensar e o escrever.
Nesse estado de abandono, a mulher realiza um deslocamento entre a casa material e a casa interior, vivendo uma experiência em que o tempo deixa de ser cronológico. Duras e Maurice Blanchot serão convocados para pensar essa solidão da casa como potencialmente criativa.
A casa, contudo, também demanda um fazer ininterrupto. Assim como a linguagem, ela é inacabada e heterogênea. Ao manejar a matéria da casa, maneja-se a linguagem: uma fala balbuciante, feita de silêncio, inacabada e cheia de desmoronamentos.
Os tecidos da casa se desgastam, mudam de função e se dissipam. Esse movimento é chamado de “baixa-costura”: pequenos gestos que cuidam, mantêm, sustentam e acompanham. Os trabalhos poéticos que serão apresentados nascem justamente desse manejo entre a matéria do tecido e a matéria da linguagem.
Dia 2 · 10/09, quinta · 19h30 às 21h
O fuxico: escutar, bordar, escrever
com Ayanne Sobral
Neste encontro, pensaremos as relações entre a escuta e a escrita femininas a partir do fuxico, técnica artesanal bastante comum no Nordeste do Brasil, realizada com pequenos círculos de tecido franzidos à mão e unidos para formar colchas, almofadas, roupas e outros objetos. Conta-se que as mulheres se reuniam para conversar sobre a vida enquanto alinhavavam tecidos e que surgiu daí o nome fuxico, tornando inseparáveis, na cultura popular, o fazer manual e a circulação de palavras.
Tomando a psicanálise (e a psicanálise literária) como fundamento teórico, nosso percurso conceitual acompanhará os tempos da construção do fuxico: 1. O recorte dos retalhos a fim de pensar o nascimento da clínica psicanalítica a partir da escuta de Freud às mulheres histéricas; 2. O alinhavo e a escuta em Lacan, para quem a voz ocupa um lugar privilegiado; 3. O franzir, gesto que consiste em puxar o alinhavo delicadamente e através do qual refletiremos acerca da importância que a mulher imprima sua marca na língua escrita e oral; e, por fim, 4. A trama textual: onde, de palavra em palavra, em sobreimpressão, “historicamente ao lado de outras mãos que bordariam tecidos de outra época”, nas palavras da escritora Maria Gabriela Llansol (1999), nasce o texto.
Dia 3 · 11/09, sexta · 19h30 às 21h
“Arte, vida, palavra”
com Adrianna Eu
A artista irá contar um pouco de sua trajetória e de como a escrita e a psicanálise atravessaram seu caminho como artista.
Durante a conversa, algumas obras e suas histórias serão citadas, assim como a leitura de alguns de seus textos e poemas.
Dia 4 · 12/09, sábado · 10h às 11h30
Tecidos “ferrados”
com Sávio Drew
No vai e vem do dia a dia, dos anos, das gerações e do tempo, deixamos de nos atentar a pequenos detalhes que são profundamente simbólicos e que afetam e muito a nossa sociedade de hoje e, provavelmente, a de amanhã.
A prática de ferrar o gado surgiu há cerca de quatro mil anos, no Egito. Após se espalhar pelo continente europeu e pela Península Ibérica, chegou ao Nordeste do Brasil. Tal prática serviu como forma de identificação de território e de posse. Um verdadeiro mapa dividia o estado por meio da marca familiar, e o gado, a terra e as pessoas escravizadas eram marcados da mesma forma.
Em meio às nossas pesquisas têxteis, passamos a notar que, nos arquivos que trabalhamos e investigamos em nosso quintal de estudos, havia tecidos, camisas e meias “ferrados” com as iniciais de seus donos sobretudo de pessoas bem abastadas, que faziam questão de demarcar os territórios que ocupavam, vestiam, usavam e exploravam.
Daí chegamos a esta pesquisa chamada Tecidos Ferrados, na qual colocamos os têxteis sobre a mesa como documentos que evidenciam como se estrutura uma sociedade que ainda reproduz muitos aspectos do período colonial e o quanto a moda e o vestuário também serviram e servem a esses processos. Pode parecer bobo, mas uma camisa “ferrada” há gerações permanece perpetuando a história de quem a possuiu no tempo ki passa, ki passô. Não são apenas iniciais: trata-se da demarcação de um espaço material e simbólico que será herdado, provavelmente, por aqueles que detêm o latifúndio da coisa, seja ele material ou simbólico.
Ao adentrar questões técnicas do bordado e estudar diferentes tipos de assinaturas, após tentarmos desfazer algumas marcas, “ferramos o tecido”. Neste caso, ferrar significa estragar algumas camisas na tentativa de remover as marcas dos antigos donos.
É profundamente simbólico pensar que essa forma de demarcação faz com que quem carrega no nome tais iniciais herde o enxoval, a camisa, os lenços de seda pura, o prestígio. E não podemos deixar de matutar sobre quem não carrega no bolso ou na história da família tecidos marcados como o gado. O que aqueles que são “ferrados” em diversas práticas coloniais deixam de herança para os seus que virão mais tarde? Será possível subverter o sistema sem sobrenomes “importantes”? Busquemos saber.
Propomos aqui, nessa roça de pesquisa, que ferremos nossos tecidos também: que demarquemos nossos territórios, que bordemos os Farias, os Silvas, os Pereiras, os Oliveiras. Pensamos o quanto seria bonito para um Silva do futuro herdar uma camisa com as iniciais de seu avô preto, de sua avó nordestina. Que bonito seria para as futuras gerações daqueles que vivem na borda encontrarem um mapa de histórias familiares sob linho e seda pura, bordados à mão e, claro, sem tragédias históricas ou geográficas.
Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, entendeu isso desde cedo quando tomava para si, dos coronéis, não apenas ouro e prata, mas também hábitos que perpetuariam os Silvas na história. Andava com um costureiro ao seu lado, e até suas meias eram bordadas. Para o bem ou para o mal, Virgulino marcou seu nome e os de seus descendentes a ponto de existirem menções e registros têxteis de sua trajetória. O resto pode até ser história, mas estamos falando dela.
E se, na tentativa de remover as iniciais OR [Orléans e Bragança] daquela camisa de linho que foi parar em sua mão, e você ficar com medo de ferrar o tecido vai com tudo, coloque Silva no lugar que a estrela brilha.
Dia 5 · 15/09, terça · 19h30 às 21h
O grau zero do vestido: experiência e mais-além
com Jonas Samudio
Discutiremos as relações entre escrita, costura e feminino a partir de textos literários, de croquis e de nossa prática como alguém que escreve e costura. Para isso, articulam-se, além do coser, do escrever e do desenhar, como experiências que se tocam, a noção de “grau zero do vestido”, inspirada na reflexão teórica de Roland Barthes acerca do Grau zero da escritura. Convocaremos, também, os textos de Mario Perniola, Jacques Lacan, Peter Stallybrass, entre outras e outros. Objetivamos discutir como, no corpo, vestir o vestido se dá como mais-além do utilitário e, pois, como uma experiência que se abre ao poético. Junto à discussão, faremos uma oficina online de croquis poéticos.
Dia 6 · 16/09, quarta · 19h30 às 21h
Palavra bordada em ponto de p: uma clínica do escrito?
com Lúcia Castello Branco
A partir da leitura que Freud desenvolve, no caso Schreber, podemos verificar que sua teoria sobre a paranoia não nasce de um caso clínico, mas de um escrito. No livro “Coisa de Louco”, partimos também da prática da letra que fizemos em algumas clínicas psiquiátricas para teorizar sobre a articulação entre a psicose e a poesia. Também nosso encontro com a obra de Arthur Bispo do Rosário situa-se em seu ponto de p (poesia e psicose), bordado em seus panôs. É, portanto, um bordado em ponto de p (psicanálise, poesia, psicose) o que pretendemos realizar em nosso encontro no Ciclo de Estudos “Palavra Des(a)fiada” n’A Casa Tombada.
Valor do ciclo
R$ 360,00
10% de desconto para professores
20% de desconto para alunos e ex-alunos
25% de desconto para participantes de ciclos anteriores
Solicite os cupons ao suporte pelo e-mail ou pelo WhatsApp
(19) 97404-7783.
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Disponibilizaremos o link para o formuçário de bolsa em breveSeis encontros com artistas do tecido, da escuta e da palavra, para pensar a escrita, a psicanálise e o bordado como gestos que se entrelaçam.
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